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quarta-feira, março 16, 2011

Pro - Ana e Mia

Pro-Ana e Mia

Anorexia nervosa é uma disfunção alimentar, caracterizada por uma rígida e insuficientedieta alimentar (caracterizando em baixo peso corporal) e estresse físico. A anorexia nervosa é uma doença complexa, envolvendo componentes psicológicos, fisiológicos e sociais. Uma pessoa com anorexia nervosa é chamada de anoréxica. A anorexia nervosa afeta primariamente adolescentes do sexo feminino e jovens mulheres do Hemisfério Ocidental, mas também afeta alguns rapazes. No caso dos jovens adolescentes de ambos os sexos, poderá estar ligada a problemas de auto-imagem, dismorfia, dificuldade em ser aceito pelo grupo, ou em lidar com a sexualidade genital emergente, especialmente se houver um quadro neurótico (particularmente do tipo obsessivo-compulsivo) ou história de abuso sexual ou de bullying. A taxa de mortalidade da anorexia nervosa é de aproximadamente 10%, uma das maiores entre qualquer transtorno psicológico.

Bulimia nervosa é uma disfunção alimentar. Tem incidência maior a partir da adolescência e de 3 a 7% da população, embora seja difícil mapear o real número de pessoas que sofrem da doença, uma vez que ela está cercada de preconceitos e é difícil para o próprio doente confessar seu problema. Cerca de 90% dos casos ocorre em mulheres. A pessoa bulímica, de acordo com os critérios diagnósticos do CID 10, tende a apresentar períodos em que se alimenta em excesso, muito mais do que a maioria das pessoas conseguiriam se alimentar em um determinado espaço de tempo, seguidos pelo sentimento de culpa e tentativas para evitar o ganho de peso com jejuns, exercícios, vômitos auto-induzidos, laxantes, diuréticos e/ou enemas. Existe também trabalhos acadêmicos recentes relatando que a ingestão alimentar excessiva caracteriza-se muitas vezes pelo sentimento subjetivo de excesso do que excesso propriamente dito. Mas, de toda forma, o CID 10 conceitua a questão de uma ingesta excessiva objetiva para fins diagósticos.

A busca desenfreada pelo corpo perfeito está produzindo disparates: o número de sites que defendem medidas drásticas de emagrecimento cresce a cada dia. Protegidos pelo anonimato da internet, eles promovem regimes compulsivos e enaltecem doenças graves como a anorexia e a bulimia. “Anas” e “mias”, como se denominam as jovens de todo o mundo, inclusive do Brasil, que sofrem desses dois distúrbios alimentares, usam a rede para trocar experiências. Receitas de como ingerir menos de 300 calorias diárias, como provocar o vômito e até mesmo de como combinar remédios e laxantes são recorrentes nas comunidades do Orkut em que elas se reúnem. “Não comia mais nada a não ser uma maçã por dia… emagreci 22 quilos”, conta uma internauta. “Beba detergente, mas bem pouquinho”, é o conselho insensato em um tópico sobre formas de induzir o vômito.
A maioria das “anas” e “mias” possui uma identidade falsa no site de relacionamentos para que elas possam participar dessas discussões sem ser identificadas. As meninas apresentam, em suas páginas, fotos de mulheres magérrimas e de suas musas inspiradoras e delgadas, como a atriz Nicole Ritchie, a cantora Cristina Aguilera e as modelos Kate Moss, Gisele Bündchen, Yasmin Brunet e Carol Trentini.
Em uma comunidade que divulga a privação total de alimento (no food) como forma de atingir  essa perfeição distorcida, há quem afirme ter passado 9 dias comendo apenas barras de cereais esporadicamente. “Mesmo com tonturas e tremedeiras, consegui ficar até o sétimo dia!”, comemora uma jovem. Sabendo ou não o risco que correm, elas combinam uma data para iniciar juntas um período de “no food”  e oferecem apoio umas às outras para manter a abstinência. “Quem começa um no food amanhã comigo?”, é a proposta presente em quase todos os fóruns e comunidades.
Se, nesse período, alguma menina passa mal e desiste, pede desculpas ao grupo e o incentiva a permanecer na “guerra contra a comida maldita”. As “ana girls”, como são chamadas as amigas que têm a doença e se correspondem na internet, se vêem como garotas disciplinadas que necessitam umas das outras para manter suas dietas malucas à base de Coca-Cola Light, chás e Trident.
Além de passar dias sem ingerir carboidratos, “anas” e “mias” associam remédios de tarja preta, fazem uso de laxantes e diuréticos e aumentam a dosagem aleatoriamente. “Ontem, tive uma crise. Às 3h da tarde, comi uma pizza inteira. Para não me sentir tão culpada, tomei 5 laxantes logo depois”, revela uma das jovens.
Quem pensa que só mulheres fazem parte desses grupos está enganado. Cada vez mais meninos sofrem com os distúrbios alimentares. Nas comunidades só para eles no Orkut, procuram “fórmulas milagrosas” para perder peso ou ajuda para vencer as doenças. “Quero meus 48kg de volta”, desabafa um garoto de 17 anos que mede 1,77m e pesa 54kg. Essa obsessão pela magreza transforma distúrbios alimentares em um estilo de vida. Meninas e meninos de todas as idades deixam de comer e exageram nos exercícios físicos almejando um padrão de beleza doentio.
Muitas das pessoas que sofrem dos distúrbios acreditam que são anoréxicas por escolha, que são poderosas porque detêm o controle sobre os próprios corpos. Outras se referem ao distúrbio como algo que exerce um domínio incontestável sobre elas, que induz seu comportamento e é quase personificado através do nome Ana
Se no Brasil os meninos e meninas se comunicam sobretudo por meio do Orkut, americanas, canadenses e neozelandesas trocam experiências em sites como o Xanga.com, hospedeiro de blogs. Nele pode-se ter acesso à versão da “carta da Ana”, uma espécie de manifesto. “Meu nome é Anorexia Nervosa, mas você pode me chamar de Ana. A partir de agora vou investir muito tempo em você e espero que retribua isso”, diz a carta. Internautas afirmam que possuem o seu teor escrito na parede do quarto. “Sou sua única amiga. Eu criei você, essa pessoa magra, perfeita. Sem mim, você não é nada”, completa o tom desafiador da carta.
Uma garota, de 14 anos, confessa que foi obrigada a criar um novo blog no Xanga.com porque seu endereço antigo foi descoberto por uma amiga. “Ela quer me ajudar a vencer a Ana e a Mia. Eu sei que tem boas intenções, mas continuar emagrecendo é uma coisa que preciso fazer por mim, por todas vocês anas e mias, pela Ana”, declara.
O número de depoimentos pró-ana e pró-mia no site é ainda maior quando se aproxima o feriado de primavera nos Estados Unidos. Viajar com os amigos para a praia deixa de ser uma diversão e se transforma em uma tortura para meninas obcecadas por dietas inconseqüentes e exercícios. As páginas de blogs abrem espaço para um desafio: perder o máximo de peso no mínimo de tempo, custe o que custar. Quando o feriado acaba, o foco é o verão, e uma data se sucede à outra como incentivo diabólico à perda de peso.
Mas, ao mesmo tempo em que a internet é usada para divulgar essas idéias absurdas, ela também é um espaço de luta contra os dois transtornos: pessoas que superaram a anorexia e a bulimia contam suas histórias e apóiam internautas que enfrentam o problema.
“Comecei a ter sintomas com 14 anos, cheguei a pesar 34kg. Eu vomitava até 20 vezes por dia, tomava laxante, fazia academia exageradamente e me pesava o tempo todo”, confessa uma menina, do Rio Grande do Sul. Após muitos desmaios e idas quase diárias ao hospital, ela buscou tratamento. Hoje faz palestras em escolas alertando os adolescentes sobre os perigos que a anorexia e a bulimia representam para a saúde.
Em um site francês de fóruns, http://forum.doctissimo.fr, muitas meninas buscam no tópico “Anorexie et Bulemie” incentivo para voltar a se alimentar normalmente e a aceitar o  próprio corpo. “Estou orgulhosa… recuperei 15kg em 3 meses! Sem contar que não provoquei mais o vômito”, afirma, comemorando, uma delas. “Procuro meninas que queiram começar uma semana sem crise comigo para que a gente se apóie”, completa outra menina que logo consegue a adesão de um grupo.
No Brasil, esse tipo de discussão está mais restrita a artigos em páginas de psicologia e saúde, e nas mesmas comunidades do Orkut em que “pró-anas” e “pró-mias” se concentram. Faltam sites específicos sobre os transtornos alimentares que mostrem perspectivas para essas garotas reconhecerem e combaterem os distúrbios. “Não desejo essa doença para ninguém, foi a pior coisa que me aconteceu”, relata uma carioca de 21 anos, que chegou a pesar 27kg. Ela enfrentou a anorexia com acompanhamento clínico, psicológico e o apoio fundamental dos familiares. “Perdi 2 anos da minha vida, e agora estou sofrendo as conseqüências na recuperação”, conclui.
Fonte: Juliana Diniz, em Revista Cláudia

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